Entrevista: Retrigger e seu ultra álbum

O Blog do Transdutor também abre espaço para artistas, produtores e personalidades para trocar idéias. E para começar vamos bater papo com Retrigger.

Imagina vc ouvir uma mistura de ska, big band, drum´n´bass, surf music, rock eletrônico, 8 bit, samples de filmes, toda energia do punk rock, timbres vintages e barulhos de videogame antigo, tudo ao mesmo tempo e de uma forma bem coesa. Imaginou?

Não, sua imaginação não vai conseguir imaginar toda essa essência até o momento que vc ouvir o último álbum “A morte do Onitorrinco Voador” do produtor Raul Costa ou mais conhecido como Retrigger . E é com ele que inauguramos esta categoria Entrevistas do blog batendo um papo bem legal e bem humorado:

Por que nós insistimos tanto em fazer música underground no Brasil? Não seria mais fácil fazer uma dupla sertaneja? : )

Música sertaneja não é fácil de fazer! Ia ser bem difícil fazer uma sem acreditar no que faz. Acho que quase todo mundo que alcança o sucesso de alguma forma, acredita no que está fazendo. Eu só acredito no que eu tô fazendo agora. Sertanejo ia ser complicado, puxar uns refrões tipo EZ moooooooooooooooooooeoeoeoeoeoeoeoeoeoeoeoeoeeoeoeoeoeney!

falta garganta…

Qual é o seu setup de equipamento em suas apresentações?

Ao vivo eu toco com o meu laptop, uma interface de áudio USB, um theremin ligado nela e o Ableton live controlando os loops e os efeitos no theremin. Eu também uso um microfone, qualquer um que me derem que estiver ligado.

No seu último álbum, a gente ouve influências de punk, ska, 8 bit, drum´n´bass, rock eletrônico… o que vc tem ouvido de bandas e artista ultimamente e quais são suas maiores influências?

Eu ouço música com muita variedade.
Já fiz parte da cena punk-hardcore, ouvi muito black flag, dead kennedys, catharsis, negative fx… Oque se produziu no brasil nessa cena tb, principalmente em BH, tipo ingovernáveis, preto velho, we say no… Não ouço muito hoje em dia, mais os clássicos, tipo Dead Kennedys. Mas muita coisa ficou na minha cabeça, principalmente a forma que se vê o show nessa cena. Outro dia descobri uma banda de punk rock de LA muito foda, uma grande influência do Dead Kennedys, que se chama Screamers. Tocavam com bateria, um sinth e um piano elétrico. MUITO FODA!

Na música eletrônica minha principal referência é o breakcore, cena que fiz parte (acho que ainda faço, não sei direito) por quase 10 anos, desde a criação do retrigger em 2001. O que eu acho legal nessa cena é que as referências são muitas, sempre misturadas de formas interessantes. Rápido e distorcido! E sempre foi uma coisa muito ampla, então na minha concepção, breakcore é o que eu faço, mas se vc ouvir o que vão te dizer o que é breakcore hoje, pode soar bem diferente.

Além disso tudo, sou um grande fã das músicas dos anos 50 e 60. Quase todo tipo de música feita nessas décadas me interessam. Rockabilly, surf, ska, garage, mod, soul, jorge ben, mutantes… É isso que ouço mais quando estou de bobeira. Mas eu ouço muita coisa…

Como referências mais atuais, acho que sou muito influenciado pelo som do Messer Chups, de longe minha banda que ainda existe favorita (junto com skatalites, mas não conta). Gosto muito do End, do Candie Hank, do Jason Forrest…

E para produzir, qual software usa? Como vc aprendeu essas coisas de mixagem, equalização? Ralou no começo!

O que eu faço e fiz com o retrigger (e no arrebite, meu finado projeto paralelo http://arrebite.com/portugues/portugues.html) sempre foi feito com o mesmo software, chamado Buzz Tracker Modular (http://en.wikipedia.org/wiki/Jeskola_Buzz). É freeware e mistura a organizaçao de modulos e vetores meio tipo reaktor e a composição feita com códigos e linhas dos antigos trackers de amiga.

É realmente um negócio meio complicado, mas ele também é um host VST, então ele faz tudo que os outros fazem. Acho muito difícil eu mudar de ambiente, já que uso ele há 10 anos! E olha que entre 2000 e 2009 não teve nenhum update!

Master, mixagem e essas coisas vc aprende na marra. Tem muito material na internet, é só procurar. Tem que aprender a se podar, o que é o processo mais doloroso. Outra coisa que muito importante é contar com monitores de referência decentes. Eu uso monitores ativos da behringer, nem tão caros assim, e estou muito feliz. Pra quem acompanha a minha carreira, eu comprei eles uns 6 meses antes de começar a fazer o EP Jeanie and Caroline. Eu postei uns lançamentos mais antigos no meu site. É só comparar a qualidade do som desses registros antigos e o som que eu fiz no jeanie pra ver como é brutal a ajuda que bons monitores dão.

VEJA VIDEOCLIP DO RETRIGGER -- EZ MONEY

E aqueles timbres vintages? Vc extrai da onde?

De onde eles devem sair! Cada um tem a sua fonte. Pra tirar os sons 8bit eu uso um plugin nativo do Buzz, que só funciona nele, que chama Kazuya GB. É muito bom!

Pra tirar os sons de orgão, existem bons vsts por aí, que só fazem isso. E os sinths analógicos mais “cheesy” tipo moog, podem ser tirados de quase qualquer sinth virtual! É só usar bastante vibrato e legatos!

E o público aqui no Brasil acostumado às festas, digamos, mais comerciais e pop, como é a reação dele ao ver sua apresentação?

Varia muito o tipo de público pra quem eu toco. Neste último fim de semana eu toquei numa casinha aqui em BH, para um público mais ligado a cena HC e foi muito foda! crowd surfings/stage dives numa sala de 3 por 3! muita gritaria e pulação. Algo completamente diferente quando toco para um público “verde” como acontece normalmente, que fica meio sem entender algumas coisas. Mas acabam gostando de toda empolgação bêbada que eu faço questão de demonstrar em todos os lives. Tem vez que toco pra quem conhece as músicas, aí é bem diferente… aí toco umas coisas velhas, faço mais barulho mesmo e tudo funciona mais fácil. Quando toco pra quem não conhece, tenho que suar muito e tentar ganhar a simpatia deles de tudo quanto é jeito. Até uma piadinha ajuda… e sempre tem o theremin, que hipnotiza muito o público que nunca viu um ao vivo…

Explica pra nós, o que são aquelas fotos “Rotatória de Praia Azucrina” que estão no Flickr? Hahaha! É tipo um barricada sonora cavada em plena praça pública?

Aquilo foi um show que fiz junto com o pessoal do Coletivo Azucrina (http://www.blog.azucrina.org/) aqui em Belo Horizonte. De certa forma, eu sou parte do coletivo, apesar de ser um coletivo que atua mais na área do design e da ilustração, sempre estamos armando coisas pra fazer na cidade, principalmente shows na rua, que chamamos de rotatória. Isto acontece pq esses shows começaram a ser feitos em rotatórias, aquelas mini praças em esquinas. Eles iam lá, levavam um gerador e faziam um som, normalmente uma banda de rock instrumental, até a polícia chegar.

Eu acabei me envolvendo só mais tarde, quando os shows ficaram um pouco mais organizados, agora com alvará e tal. A gente monta o som na rua e começa a tocar. Normalmente outros coletivos da cidade participam, tipo Roodboss (djs de música jamaicana http://beagaska.wordpress.com/roodboss-soundsystem/).

Essa rotatória de praia azucrina aconteceu em dezembro, na praça da estação aqui em BH, no centrão da cidade, onde tem umas fontes legais. O objetivo era fazer um show e quando as jorrassem agua, a gente poderia fazer uma praia de mineiros!. Foi bem legal o show, a gente fez um videoclipe ao vivo lá, comigo tocando Police Truck dos Dead Kennedys.

Confira o vídeo aki:

Hoje em dia proibiram eventos nesta praça e um certo movimento acontece mais ou menos a partir dessa nossa idéia, com um monte de gente vestido para ir pra praia curtiundo uma bagunça no meio do centro. Saca um texto sobre isso: http://www.meiodesligado.com/2010/01/praia-da-estacao-o-hit-do-verao.html
Eu não estou participando dessa praia, mas acho bem legal. Por que pra mim, não tem nada mais legal que tocar na rua, é o que me empolga mais hoje em dia. Meu plano para o futuro mais próximo é ter meu próprio sound system e juntar com do coletivo azucrina pra gente poder fazer muito barulho e ficar mais perigoso para o mundo.

Interessante sobre o lance da praça e vc adquirir um sound system. Mas vem cá… esse lance de fazer som na rua, não é uma coisa perigosa para os políticos, não?… vc sabe que na Jamaica os sound systems delá conseguiram até mudar várias quadros políticos do país!

Não sei muito sobre como os soundsystems podem influir no mundo, mas sei como podem influir no meu! Quero ter meus próprios meios de tocar, meios de me divertir e formar meu público. Quero ter a oportunidade de poder compartilhar isso com artistas que dou valor. Tocar para os outros nem sempre é bom e você perde muito dinheiro. Perder por perder, prefiro perder fazendo como eu quero. ;)

Eu li no seu site que vc comprou um sintetizador antigo, tipo moog. Isso procede? Onde vc adquiriu? Não quer vender pra mim, não!? hehe!

Eu comprei um Theremin da RDS (http://www.theremin.com.br/)

É um theremin construído com o mesmo projeto do Theremin Etherwave, feito pela Moog. Ele não é exatamente um sintetizador, é um instrumento eletrônico russo, inventado no início do século 20 na rússia, por Lev Theremin, um professor de física e de música.

Nunca viu um theremin? É aquele instrumento tocado com duas antenas, que você toca sem tocar em nada, só com a distância do seu corpo para o instrumento. Eu tenho 2, um bem simples que eu uso nos lives há algum tempo (você tem que aparecer em um, hein?) e esse mais robusto e profisisonal, que acabei de comprar.

Sugiro que você compre um da RDS, por que eles são muito bons e eu assino embaixo! E são muito baratos se você comparar com o preço que é pedido no Etherwave importado.

E sobre suas apresentações no exterior, especificamente na Europa. O que vc observou de positivo nestes lugares para que a gente possa aprender referente à industria da música e à indústria do entretenimento?

Ei fiz duas micro turnês. Uma de 7 shows e outra de 3. A primeira, em 2004, foi muito importante pra mim, por que pude ver a cena do Breakcore de perto, conhecer vários artistas que só conhecia pela internet. Foi bom ver eles tocando e entender muitas coisas. Foi dessa viagem que eu percebi que eu tinha que fazer um live muito melhor, que era possivel e necessário. Hoje meu foco é este, fazer do meu live uma experiência interessante pra todo mundo envolvido.

Não sei se observei nada sobre a industria lá não. Toquei em eventos independentes, sempre na raça, pra variar. Todos eventos que eu toquei foram sem fins lucrativos, todo o lucro dividido com os artistas. Acho que não tem segredo nesse sentido, né?

Vc citou suas influências nas quais são as mais variadas e divergentes possíveis. Antigamente, nos anos 70, 80, a banda que era de um estilo (o rock, por exemplo) só tinha como influência bandas de rock, e por ai vai. Hoje os artistas bebem das mais variadas fontes, graça é claro, à internet. Como vc vê o rumo da música? Como o público vai conseguir absover tanta experimentação?

Não sou muito de fazer previsões sobre o futuro… sempre dão errado! Hoje as pessoas estão conseguindo se desligar um pouco desta questão de sub-gêneros, tipo “eu só gosto de metal”, “sou da cena do hip hop e não ouço mais nada”. Quem tem essa mentalidade consegue apreciar o que faço. Eu acho que tenho um som bem coerente, apesar de ter referências diversas, acho que isso aparece nos discos. Mas acredito que essa questão de misturar mais referências já está até ficando meio clichê. Todo mundo agora é misturador, “alquimista” dos sons, “mago” dos mashups… Eu tento fazer essas coisas mais naturalmente e não “misturando tudo que aparece pra ver no que dá”. É mais ou menos isso que eu quis dizer com a coisa do Ornitorrinco Voador. O ornitorrinco é esse bicho que é um mashup de tudo quanto é coisa do reino animal, parte pato, parte lagarto, parte rato.

Parece que é fácil fazer um ornitorrinco musical hoje em dia. Difícil mesmo é fazer ele voar. ;)

Para finalizar, eu sinto que no seu sangue corre uma veia contestadora em seu trabalho. Tem hora que vc tem vontade de gritar contra o sistema ou tá bom assim mesmo, se infiltrar no terreno e ficar minando o ambiente com a sua porrada sonora?

Não sei muito bem como fazer isso. Não sou do tipo que grita “contra os sistema”. Acho que a luta política hoje é uma coisa muito mais complexa que velhas dicotomias e gritos de guerra baratos podem explicar. Nos meus empregos “de verdade” como professor e assessor sindical, eu tento fazer alguma diferença em alguns poucos pontos que acho que posso contribuir. É pouca coisa, mas é o que faço, realmente.
Como músico, não faço política diretamente. Eu faço arte, por mais brega e pretensioso que isso possa soar. E música primordialmente instrumental, o que faz que qualquer discurso político fique bem mais complicado de se transmitir.

Não sei bem responder essa pergunta, acho que quem acha que sabe exatamente como usar a música pra mudar o mundo é apenas um demagogo! Por que não tem receita, não sei como se faz isso… mas tudo pode mudar…
valeu

PARA CONHECER MAIS RETRIGGER:
www.retrigger.net
Para Baixar seu álbum “A Morte do Onitorrinco Voador”, clique aqui!
Chame Retrigger para tocar no seu evento!!!

3 Responses

  1. Raul Says:

    Valeu pela entrevista e pelo espaço! boa sorte e te espero em algum show ai em SP, hein?

  2. Marcelo Reis Says:

    alou!
    coloca o link original de EZ Money, que esse gringo ai roubou ele e subiu em péssima qualidade com a tela em 4:3.
    Grato

    http://www.youtube.com/watch?v=XlNBDSH9ikY

  3. Transdutor Says:

    ok! corrigido!

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